Artigo 04 - Do legalismo ao liberalismo: de um extremo ao outro. Por que as igrejas evangélicas não conseguem ser equilibradas em sua teologia?

Texto base: Gálatas 5:1 - “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou”.

Autor: Jefferson G. de Sousa

 



INTRODUÇÃO

            Precisamos constantemente olhar de forma geral para a saúde teológica da Igreja. Como têm se comportado os nossos líderes? O que eles têm pregado aos irmãos? Como a Igreja tem vivido? Qual o seu testemunho? Infelizmente, são questões com as quais não podemos deixar de nos preocupar. Parece-me que a Igreja brasileira não consegue entrar e permanecer em um equilíbrio teológico, transitando sempre de uma extremidade à outra. Por alguns anos, a nossa luta foi contra o legalismo existente na grande maioria das igrejas. Hoje, por sua vez, enfrentamos o perigo do liberalismo teológico em boa parte das igrejas evangélicas do Brasil. Neste artigo, vamos tentar entender um pouco sobre isso e como nós podemos viver, de forma bíblica, uma teologia equilibrada e saudável nas igrejas evangélicas do Brasil.

 

Sobre o legalismo


            O legalismo é a tentativa de alcançar a aceitação diante de Deus por meio de regras, tradição e obras humanas, colocando-as acima ou ao lado da graça de Cristo. Veja, algumas denominações evangélicas impõem regras às quais chamam de tradições aos seus fiéis, que devem obedecer e seguir, caso queiram permanecer ali e também tornar-se obreiros daquela denominação. Regras essas que vão além das Escrituras, estabelecidas no início daquela instituição que são transmitidas ao fiel no início de sua caminhada naquele ambiente. Regras como: Não coma isso, não beba aquilo, não vista tal roupa, o cabelo tem que ser assim, não pode usar barba, etc. Estão entre as regras frequentes de tais denominações. Quando questionados, os líderes dessas denominações, não tendo base bíblica, usam a desculpa da “tradição denominacional” para justificar suas imposições aos fiéis. E quando pressionados, quase sempre vem a ignorância da seguinte forma: “Quem não quiser seguir as regras vá para outro lugar!”. Mas, quem lhes deu autoridade para decidir onde um crente, membro do corpo de Cristo, deve ou não estar para ter comunhão com os irmãos, servir ao Senhor naquele lugar e adorá-Lo?

            No Novo Testamento, podemos observar tanto nas falas de Jesus quanto nas falas dos apóstolos uma luta contra essas regras humanas impostas ao povo de Deus. Jesus, por exemplo, questionou diversas vezes e condenou os fariseus por isso, vejamos:

Mateus 23:4 Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los.

Esse texto de Mateus 23 é muito conhecido no meio evangélico devido à forma como Cristo fala sobre esse tipo de liderança. E aqui nesse texto, Cristo está claramente condenando os fariseus por imporem regras excessivas ao povo. Outro grande perigo para as Igrejas Evangélicas nesse sentido, é que em muitas denominações, devido à quantidade excessiva de regras humanas que vão além das Escrituras, há o perigo de substituir a Palavra de Deus por tradições religiosas, Jesus também advertiu sobre isso:

Marcos 7:7-8 Em vão me adoram, as doutrinas que ensinam não passam de ordenanças humanas. E assim abandonais o mandamento de Deus, apegando-vos às tradições dos homens.

E esse é um fator presente em muitas igrejas evangélicas, algo que não tem como negar. As denominações e seus líderes fazem isso descaradamente, é observável também na forma como seus fiéis se comportam, alguns até mesmo se gabam de tais regras, movidos por sua ignorância, arrogância e principalmente falta de conhecimento da Palavra de Deus, a qual dizem conhecer e viver. O fruto dessa doutrina legalista está na “aparência exterior” daquilo que não é interior. Por isso essas regras não têm poder para transformar o coração do homem, apenas colocam um cabresto, e por determinado tempo.

            O apóstolo Paulo escreveu sobre isso, vejamos:

Colossenses 2:20-23 Considerando que morrestes com Cristo para as tradições humanas e a falsa religiosidade deste mundo, por que vos sujeitais ainda a tais ordenanças como se pertencêsseis a este sistema de valores? Não mais obedeçais a regras como estas: “Não toques!”, “Não proves!”, “Não manuseies!” Todas essas regras estão destinadas a desaparecer pelo uso, pois se baseiam em ordenanças e ensinos meramente humanos. Esses regulamentos têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e rígida disciplina para com o corpo, mas não têm valor algum para refrear as paixões da carne.

Podemos considerar que o apóstolo Paulo está alertando contra as regras humanas que aparentam santidade, mas não transformam o coração. Eu poderia citar tantos outros textos sobre esse assunto, mas, quero ser breve. Poderíamos considerar, por exemplo, a parábola do fariseu e do publicano em Lucas 18:9-14, em que Cristo mostra a arrogância religiosa e a humildade diante de Deus. Portanto, podemos chegar à conclusão que, denominações cristãs evangélicas que impõem regras e tradições que vão além das Escrituras, apenas aparentam ser, o resultado dessas regras humanas é apenas exterior, sem qualquer efeito transformador no coração do homem, e muito menos produzem qualquer benefício para a eternidade.

 

Sobre o liberalismo


            Já o liberalismo, no contexto cristão, é quando há a relativização dos ensinamentos bíblicos, adaptando-os à cultura e aos desejos humanos. Enquanto algumas denominações e suas respectivas lideranças tentam “prender” demais os seus fiéis com regras que vão além das Sagradas Escrituras, outras, por sua vez, estão “liberando” demais, minimizando as regras básicas da fé para atender aos anseios do povo. Isso muitas vezes acontece pelo anseio de se “adaptar” à cultura com o objetivo de encher o templo e satisfazer a falsa sensação de sucesso ministerial que vem pela quantidade de membros que uma denominação pode ter. Outras vezes vem pelo medo de perder as receitas financeiras que entram mensalmente na Igreja e tantos outros motivos que levam a essa relativização das Sagradas Doutrinas Bíblicas para o governo da Igreja.

            Quando isso acontece, a igreja perde a sua referência diante da vontade de Deus, e deixa também de ser um referencial contra o pecado no contexto social na qual está inserida. Há muitas referências bíblicas nesse sentido, vejamos esse texto do Antigo Testamento:

Juízes 21:25 Cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos.

Esse era um contexto muito difícil para o povo de Deus, o período dos juízes. Moisés havia morrido, Josué, o seu sucessor, também. Entre idas e vindas, transitando entre a obediência e a desobediência, Deus levantava Juízes no meio do seu povo, contudo, conforme o texto nos diz “cada pessoa fazia o que parecia direito”. As Leis de Deus eram colocadas de lado, para que vivessem conforme gostariam, satisfazendo suas próprias vontades. Isso é muito parecido com o que podemos observar no contexto de muitas Igrejas liberais hoje em dia. Temos as Escrituras Sagradas que nos ensinam o modo correto de o crente viver, mas, para satisfazerem suas vontades carnais, relativizam a Palavra de Deus para viver conforme querem, associando-se a este mundo, com suas culturas depravadas.

            O apóstolo Paulo fala algo importante sobre isso:

2 Timóteo 4:3-4 Porquanto, chegará o tempo em que não suportarão o santo ensino; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, reunirão mestres para si mesmos, de acordo com suas próprias vontades.

Aqui Paulo está fazendo uma importante advertência contra a rejeição da verdade bíblica, alertando que virá o tempo, e ao que parece já chegou, em que as pessoas buscarão líderes que possam satisfazer suas vontades, que aceitem a libertinagem sob o pretexto de “nada a ver”, “é cultura”; para cobrir uma verdade escriturística que não podemos ignorar: “Todas as coisas me são permitidas, mas nem todas são saudáveis” (1 Coríntios 6:12). Tanto no legalismo quanto no liberalismo a igreja transita no perigo da inversão de valores. No liberalismo, as Igrejas confundem a nossa liberdade em Cristo com a libertinagem, precisamos entender que a verdadeira liberdade em Cristo não é fazer o que queremos, mas, sim, fazermos aquilo que agrada e glorifica a Deus. A liberdade que Cristo nos proporciona é do peso da culpa, do pecado e das tradições desse mundo para vivermos a graça transformadora, que nos muda de dentro para fora, permitindo vivermos guiados pelo Espírito Santo de Deus e em seu amor.

            Judas, em sua carta, é muito enfático quanto a este assunto:

Judas verso 4: Porquanto, certos indivíduos, cuja condenação já estava sentenciada há muito tempo, infiltraram-se em vossa congregação com toda espécie de falsidade. Essas pessoas são ímpias e adulteraram a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor.

O chamado aqui é para batalhar pela verdadeira fé cristã, que não vive outro caminho a não ser o da santidade. E Judas, nesse texto, está fazendo um importante alerta contra o uso da graça de Deus como desculpa para o pecado. O apóstolo Paulo, por sua vez, em Romanos 12:2 deixa claro que o cristão não deve moldar a sua fé segundo a cultura deste mundo. Isso é lógico, a única cultura que a Igreja deve aderir é a cultura celestial, a cultura do céu, pois é de lá que vem tudo o que precisamos para seguir firme nessa fé, até à volta do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Concluindo, igrejas com uma teologia liberal, erra tanto quanto uma igreja legalista e está fora daquilo que as Sagradas Escrituras dizem e ensinam sobre o modo de viver dos santos.

 

O equilíbrio bíblico e teológico


            A Bíblia não apoia nem o legalismo nem o liberalismo. O Evangelho de Jesus chama cada cristão a viver em um equilíbrio fundamentado na verdade e na graça do Senhor. O maior exemplo desse equilíbrio é o próprio Jesus, Ele é o exemplo perfeito do equilíbrio entre o amor e a verdade que precisamos viver, João viu isso e declarou:

João 1:14 E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. Vimos a sua glória, glória como a do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade.

Assim deve ser o viver cristão, um viver piedoso, tanto de forma pessoal como em comunidade. A Igreja foi convocada por Cristo para glorificar a Deus, ser santa, fazer missões pregando o evangelho e fazendo discípulos de todas as nações, crendo na promessa de Jesus que afirmou que estaria para sempre conosco.

            De forma individual, o cristão precisa entender que fomos salvos pela graça de Deus, e chamados para praticar as boas obras (Efésios 2:8-10). E essas boas obras que fazemos, devem ser para glorificar a Deus e expressar o verdadeiro amor cristão, fazendo isso à semelhança de Cristo, que nos amou de forma sacrificial. A aparência exterior deve exalar e ser resultado direto de quem somos interiormente, entendendo isso, seremos exemplo de humildade entre todos, o amor e a santidade serão evidenciadas por meio de uma vida de obediência às Sagradas Escrituras, que de forma graciosa e poderosa, molda o nosso ser interior. Um exemplo do modelo do equilíbrio que Deus espera do seu povo está em Miqueias, vejamos:

Miquéias 6:8 Ó ser humano! Ele já te revelou o que é bom, e o que o Senhor exige de ti senão apenas que pratiques a justiça, ames a misericórdia e a lealdade, e andes humildemente na companhia do teu Deus!

Que texto maravilhoso! Reflita sobre isso.

            Por fim, quero enfatizar que a liberdade cristã deve ser exercida com responsabilidade, Paulo deixa isso claro em Gálatas 5:13. Liberdade em Cristo não significa libertinagem! Uma teologia equilibrada é aquela em que a Igreja ou comunidade, aprendeu a viver o Evangelho em sua totalidade, sem acréscimos, apenas o que está escrito e nos foi dado por Cristo e seus apóstolos. O que passar disso nada mais é do que uma tentativa humana de se apoderar daquilo que não é seu. Do que a Igreja precisa? Do Evangelho de Jesus e nada mais!

 

Resumindo

            Infelizmente, muitos cristãos estão passando de um extremo para o outro: Legalismo “Tudo é pecado”, Liberalismo: “Nada é pecado”. O legalista tem as seguintes características: Julga pela aparência, exalta tradições humanas, mede espiritualidade por regras externas e tem dificuldade de compreender a graça. O liberal relativiza as Verdades Bíblicas, minimiza o pecado, coloca experiências acima das Escrituras e adapta a fé à cultura. Nos evangelhos, Jesus corrigiu os legalistas, chamou os pecadores ao arrependimento, demonstrou o amor sem aprovar o pecado e pregou a graça sem abandonar a verdade. Se quiser evitar os extremos e se tornar um cristão com uma teologia saudável siga essas instruções: Conheça profundamente as Escrituras, mantenha comunhão com Deus, busque a orientação do Espírito Santo, avalie tudo à luz das Escrituras e seja humilde.

            O legalismo prende o homem às regras, o liberalismo o entrega aos próprios desejos. O evangelho de Jesus, porém, conduz o ser humano à liberdade verdadeira em Cristo. Deus não nos chamou para vivermos presos à tradição humana nem dominados pela cultura deste mundo, mas para caminhar em santidade, guiados pela graça e pela verdade reveladas em Sua Palavra.

 

Deus te abençoe.

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